sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sem mais palavras

Tinha um cara e uma garota. Frequentavam a mesma sala todos os dias, mas era como se não se enxergassem ali. Tempos atrás haviam escolhido a mesma profissão, justamente para frequentarem a mesma sala todos os dias. Ambos lembravam e se arrependiam disso. Ele demonstrava, ela não. Ela era muito mais fria e sabia regular bem o que expunha ao mundo. Naquele dia exibia um sorriso de satisfação invejado por qualquer feliz que exista. Mas os dois estavam ali, dividindo os mesmos metros quadrados que os separavam em outras dimensões. Além do trabalho, tinham uma pergunta em comum: como será que se sente? A dúvida crescera com o tempo e já era maior do que o verdadeiro anseio pelo bem estar por qualquer ex pessoa na sua vida. Sempre arrumavam jeitos de descobrir. Acontece que nesse dia os dois resolveram se observar pra descobrir o que o outro vinha passando. E foi assim, de forma sincronizada, que passaram a se olhar durante o expediente. No primeiro momento, apenas se viam, sem se quer uma frase no olhar ou qualquer forma de comunicação. Olhavam-se como quem observa um objeto. Pra eles aquilo durou uma eternidade. Pra Jane, a moça do café, eles apenas cruzaram olhares. Desviaram-se um do outro. Ele, abruptamente olhou pro computador. Ela, pra janela, pro céu e depois pro relógio. Levantou e saiu. Ele não olhou.
Assim que sentou, ela empurrou os óculos pra perto dos olhos e de canto de olho viu que ele olhava pra ela, numa tentativa de recomeço. Ela aceitou. Retomaram seus olhares a fim de decidir o futuro dessa tentativa de trazer o passado pro presente. Ansioso, ele já pensou em quando contaria tudo que passou longe dela, e como teve que aprender a viver sem ela tudo o que haviam combinado. Como havia sido difícil perder o vício pelo seu perfume e pela sua voz. E quantas vezes havia ensaiado ligações e discursos de volta-pra-mim sozinho, sempre sozinho. Ele continuou sozinho todo esse tempo. Ela não. Ela apenas olhava, e esperava que ele pensasse em tudo que seria contato por ele. Ele sempre tão ansioso. Ela sempre meticulosa. Ele estava exposto, e ela sabia. Ela podia ver a linha de pensamento que ele atrapalhadamente tentava organizar, resumir, ter. Não deu outra. O tempo parou bem ali, menos pra ele e pra ela. Ele foi corajoso em dizer “oi”. Ah, quanto tempo não se davam oi? Talvez três, quatro meses. Talvez algumas horas, mentalmente. O que importa é que dessa vez foi pra todo mundo ver mesmo, oi e ponto. Ele esperou uma reação qualquer. Ela conteve todas as reações possíveis. Por enquanto só se olhavam. Ele, boquiaberto com o último “i” pronunciado, e ela recuada, como sempre. O tempo voltou a andar. A Jane, moça do café, viu e quase pulverizou a bebida pelo chão da sala. O escritório inteiro repetiria o movimento, se estivessem tomando café. Dessa vez a sala parou. Depois, também de forma conjunta, os observaram. Ele sabia dos olhares e agora se tremia. Ela também sabia e pouco se importava. Ensaiou o mais ridículo dos sorrisos de deboche que possuía, balançou levemente a cabeça voltou ao trabalho. Pra todos uma cena de desprezo. Pra ele, mais que isso. Ela disse em linguagem única, dessas que cada casal possui uma singular: eu sempre soube que você era fraco, e sabia que você reagiria primeiro. Continua o mesmo, continuemos os mesmos então. Ele sentiu o peso de cada letra. Cada frase que estava por trás daquele “oi” meia boca que fora dito, cada sentido de cada pontuação. Sentiu que a palavra afundava como se sua consciência fosse feita de areia movediça. À medida que pensava em retornar para o seu trabalho, pensava mais ainda em retornar para hoje mais cedo, quando tinha prometido a si mesmo que não mais pensaria nela, que não mais sentiria ela. Tarde demais, aquele “oi” pairava o ambiente. Havia um peso desigual em cada letra. Mas ambas doíam agora. Não pelo “oi” em si, mas porque aquela palavra representava um conjunto de frases apaixonadas não ditas por puro orgulho, este agora quebrado por um simples olhar de desprezo. Ele decidiu ali que suas palavras não seriam mais pra ela. Decidiu não ser mais dela. E, como se fosse opcional, decidiu definitivamente mostrar aquilo pra ela. Ela sacou, mas fingiu que não. Foi fria mesmo quando percebeu que estava perdendo ali parte de si. Eram partes uns dos outros. Seriam incompletos agora.
Então, tinha esse cara incompleto e essa garota incompleta. Frequentavam a mesma sala todos os dias, mas era como se não se enxergassem ali. Não se enxergavam e não se ouviam mais. Sem mais palavras.

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