terça-feira, 20 de outubro de 2009

O mundo de lado

É sábado, é noite e chove. Não existiria muito colorido senão fossem os amarelos das luzes bêbadas e todos os tons tristes do céu. Aqui há somente eu e o cheiro do vinho. O gosto já começa a incomodar. A garrafa ganhou vida há muito tempo e a rolha arrumou um par pra dançar.
O vento que arranca um grito da varanda é molhado e frio. Não sei qual desses motivos me fazem tremer mais. A tempestade poderia calar toda a cidade, se esta resolvesse reagir. Mas não, somos inertes. Estamos todos em transe sinestésico.

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Chove um mundo inteiro lá fora e eu perdi a conta de quantas horas se passaram desde que ouvi o primeiro chiar das águas. A verdade é que eu sequer comecei a contar, não me preocupei. Mas a noite avança e com ela a chuva e o sábado e as luzes bêbadas. Até elas querem abrigo nessas circunstâncias. Sejam bem vindas! Não há conversa lá fora, só um baile de caules e galhos, e das nuvens preguiçosas que não se apressam em voar. Eu também voaria se não fosse esse vinho me cercando. E o cheiro dela já começa a incomodar.

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Fechei um pouco os olhos e dei por conta de que o sol não veio neste domingo. Deve ser por causa da chuva. Não há mais luzes lá fora, só o desfecho da noite anterior. Quem dança agora é minha sala. Eu até dançaria se soubesse. Mas deixa-a sozinha, que a porta é meio tímida e tal, mal se mexeu essa noite toda. E esse sono demora a me largar. Eu até dormiria mais se tivesse um por que. Já que ele não vem, as nuvens se aproximam com tons de cinza e roncos inimitáveis. As luzes foram embora e esqueceram-se da despedida. Pelo visto, a rolha e a garrafa de vinho fizeram as pazes. As nuvens agora roncam e garoa chia lá embaixo. Deve ser o chá que esqueci no fogo.

Minha sala vista desse tapete parece ser mais baixa, e o mundo inteiro agora está de lado.

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