- Que lua!
Até a noite dormia naquela hora. O céu se exibia como um sujeito inseguro que tenta garantir-se como o foco de todos os olhares. Estava dotado de todas as estrelas possíveis. A temperatura abaixara gravemente nas últimas horas. Ao longe, podia-se ver a chegada da frente fria, conduzida por nuvens preguiçosas.
O silêncio era o retrato dos dois naqueles tempos. Ele era a melhor resposta para as perguntas que os dois não queriam fazer, tampouco responder. Era a descrição daquele casal, uma briga muda.
- É... Ela tem se superado neste inverno – Sustentou Gustavo, até então, namorado.
Os dois estavam sentados em um tronco morto, cortado para servir de banco em um parque no ponto mais alto da cidade, onde se via quase todo o Bosque da Serra. Um completo paradoxo, segundo os dois. Não mais do que 30 centímetros os separavam, porém, a real distância era quilométrica. A rotina de uma relação gasta havia levado os dois à caminhos diferentes.
Para Gustavo, aquela situação exigia estratégia. Aquela noite era um grande tabuleiro de xadrez. Mila, porém, definiria como um teatro manjado.
- E então, Gustavo? Já perdemos quase a noite toda com essas reticências.
- Não é tão fácil pra mim. Ainda não consegui decidir.
- Não há escolhas, Gustavo. Eu vou para o outro lado do Atlântico em 72 horas.
Mila se referia ao intercâmbio que faria na Suíça. Passaria seis meses lá tentando uma bolsa de estudos para Economia na Universität Zürich. Cada vez que ela dizia estas palavras, com uma entonação a mais em alemão, Gustavo sentia que a frente fria avançava mais rapidamente ao seu encontro. Subiam-lhe arrepios de avisos.
- Mas serão só seis meses – Dizia Gustavo, gasto, feito suas esperanças em vão.
- Que bom saber que torces para que eu volte sem sucesso ao Brasil. É isso, Gustavo. É isso que não dá mais... Esse seu egoísmo, essa sua visão limitada das coisas. Não consigo ter mente fechada feito a sua. Eu quero muito mais do que um romance em minha vida. Sempre deixei isso claro pra você, desde o começo. Não posso trocar todo um futuro por incertezas de uma relação - Ela parecia ter muito mais do que 19 anos quando falava dessa forma.
Cada palavra proclamada era uma agulhada no coração de Gustavo. Uma forma de tentar estimulá-lo a reagir, querendo desesperadamente acordar o orgulho que jazia nele desde que havia encontrado Mila. Gustavo apenas deu de ombros. O que era pior, segundo Mila. Sua forte personalidade exigia ao seu lado um homem de punho, não um abana-rabos que a acompanhara nos últimos cinco meses. Porém, o que lhe atraía era o senso de proteção. Subconscientemente ela queria acordá-lo pra vida. Ele dormia desde que ela lhe beijara a boca pela primeira vez. Mila não gostava de ser foco.
O vento frio soprou forte os cabelos castanhos e cacheados dela, tão confusos quanto a cabeça dele. No alto de seus 1,65 m, Mila era a detentora de seu próprio estilo. Abusando do despojamento de suas roupas, ela dizia que havia coisas mais importantes na vida do que salão de beleza. Gustavo concordava sorridente, embora ele achasse que ela não precisava destes artifícios. Ele era do tipo comum, desses que se acha em punhados por ai. 1,80 m, magricela, escondido atrás de óculos quadrados e antiquados. Suas roupas mostravam claramente o que ele tentava esconder. Aqueles jeans e camisetas que entregam um sujeito que cairia muito melhor em roupas sociais compradas pela mãe. A grande diferença em prol dele era a sinceridade, e a vontade démodé de unir vidas ao lado dela.
- Pode ser que passe – Disse ele, pesando cada palavra.
- “Pode ser que você passe”, você quis dizer.
- Não, não isso. Pode ser que passe, você sabe, essa fase - Ouviu-se o vento como resposta. Ele tirou os olhos do nada e virou-se pra ela, que ainda observava a lua.
- Não sei não, Guga. Como você pretende esperar até lá?
- Isso daí é comigo. Eu sei que você abomina namoros à distância.
- Já estamos distantes há muito tempo. Desde a era Renata.
- Ah, você com isso de novo.
- Você quem começou. Não dá pra esquecer sua traição, nem sua desculpa infame. Ela era minha melhor amiga. Ao menos escolhesse melhor o alvo. Mas não. Ainda foi tolo o suficiente pra não conseguir esconder isso de mim. Da próxima vez, Gustavo, seja mais frio. Suas emoções te entregam. Só duas pessoas podem saber que houve uma traição.
- Não vou mais te trair.
- Não estou falando de mim. Eu vou a Zurique. E mesmo quando voltar, seja daqui seis meses ou cinco anos, não terei esquecido. Preciso ir, por mim. A gente fica por aqui, como você deve ter imaginado.
- Eu sei.
Mila confundia o amor com compaixão e proteção. Não sabia o que sentia pelo Gustavo, mas sabia muito bem que precisaria de muito tempo para abafar tudo isso. Apesar de todas suas tentativas, Gustavo não era apenas uma etapa. Fazia parte dali pra frente.
- Me acompanha na descida? O Caminho é perigoso essa hora.
- Claro...
A essa altura, as nuvens já cobriam suas cabeças e toda a cidade. O frio servia de estímulo para andarem mais próximos. Cem metros adiante, Mila procurou a mão de Gustavo em meio ao vazio que havia lançado minutos antes. “Força do hábito”, pensou ele antes de encontrar seus dedos com o dela. Ela estancou embaixo de um ipê branco carregado de inverno, e o impulso fez com que ele levasse um safanão, até virar-se de frente pra ela. Condenando todas suas decisões, e sem medir o peso da situação, ela o beijou tão interessada como na primeira vez. Gustavo amolecia em seus braços. Inversão de papéis.
- Tenho sempre que fazer tudo sozinha?
- Eu te amo – Antes de abrir os olhos e o sorriso.
- Schachmatt.
Semanas depois juravam juntos amor eterno dentro do Bernhard Teather.
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