segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Teoria da Relatividade: ovos

Há dias vi a cena que inspirou Einstein a desenvolver a Teoria da Relatividade.


Esperava apressadamente o transito fluir, olhando sem enxergar o mundo lá fora, sob o sol de 35º graus característico do ano. O mundo era esse: carros parados, luzes vermelhas estáticas e um senhor na calçada com sua bicicleta, proibida de estar na calçada, a não ser que se queira inspirar uma teoria. No alto de seus 70 anos, aquele senhor tentava equilibrar em sua bicicleta azul uma caixa marrom, agora vazia, para novamente colocar conteúdo nela: caixas amassadas com leite dentro. Após algum trabalho, sucesso. A bicicleta descansava sobre seu pedal sobre o meio fio, enquanto o senhor analisava a bandeja de ovos no chão, que mais parecia bandeja de gemada. Já era. Os ovos já eram, com casca e tudo, embalados em papel contact transparente, jogados no chão com ares de desastre. O senhor olhava e os ovos escorriam, como lágrimas. Naquele momento, eu juro ter visto o senhor chorar ovos. A cena me mostrava muito mais do que uma bandeja descartada, me mostrava o fracasso, o desperdício, como se ele não pudesse se dar ao luxo de esbanjar aqueles ovos. Afinal, quanto custa uma dúzia de ovos? Pra mim, eu sei lá, nunca comprei uma bandeja roxa daquelas. Para aquele senhor, muito. Às vezes, mais do que ele poderia pagar. Representava uma omelete a menos, talvez, fome a mais. Quem sabe o sepulto de um bolo, que seria de luxo. Eu olhava e não acreditava na cena, tanta poesia em uma caixa de ovos. Os olhos, perplexos. Olhos de uma criança que observa o trincar do display de seu iPhone, novinho, sem remover a película sequer. Vai ver era isso. Ao invés de maçã, ovos. Ou talvez não era nada disso, eram apenas olhos de decepção, por pensar em ouvir o quanto ele é desastrado. Ou só refazia mentalmente a rota pro mercado mais próximo. O fato é que é relativo. Pra mim era isso. Pro motorista da frente não era nada, ele sequer viu. E tava tudo ali, relativamente perto. 

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