Há dias vi a
cena que inspirou Einstein a desenvolver a Teoria da Relatividade.
Esperava apressadamente
o transito fluir, olhando sem enxergar o mundo lá fora, sob o sol de 35º graus
característico do ano. O mundo era esse: carros parados, luzes vermelhas estáticas
e um senhor na calçada com sua bicicleta, proibida de estar na calçada, a não
ser que se queira inspirar uma teoria. No alto de seus 70 anos, aquele senhor
tentava equilibrar em sua bicicleta azul uma caixa marrom, agora vazia, para novamente
colocar conteúdo nela: caixas amassadas com leite dentro. Após algum trabalho,
sucesso. A bicicleta descansava sobre seu pedal sobre o meio fio, enquanto o
senhor analisava a bandeja de ovos no chão, que mais parecia bandeja de gemada.
Já era. Os ovos já eram, com casca e tudo, embalados em papel contact
transparente, jogados no chão com ares de desastre. O senhor olhava e os ovos
escorriam, como lágrimas. Naquele momento, eu juro ter visto o senhor chorar
ovos. A cena me mostrava muito mais do que uma bandeja descartada, me mostrava
o fracasso, o desperdício, como se ele não pudesse se dar ao luxo de esbanjar
aqueles ovos. Afinal, quanto custa uma dúzia de ovos? Pra mim, eu sei lá, nunca
comprei uma bandeja roxa daquelas. Para aquele senhor, muito. Às vezes, mais do
que ele poderia pagar. Representava uma omelete a menos, talvez, fome a mais.
Quem sabe o sepulto de um bolo, que seria de luxo. Eu olhava e não acreditava
na cena, tanta poesia em uma caixa de ovos. Os olhos, perplexos. Olhos de uma
criança que observa o trincar do display de seu iPhone, novinho, sem
remover a película sequer. Vai ver era isso. Ao invés de maçã, ovos. Ou talvez
não era nada disso, eram apenas olhos de decepção, por pensar em ouvir o quanto
ele é desastrado. Ou só refazia mentalmente a rota pro mercado mais próximo. O
fato é que é relativo. Pra mim era isso. Pro motorista da frente não era nada,
ele sequer viu. E tava tudo ali, relativamente perto.
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