sábado, 11 de dezembro de 2010

Sobre o marinheiro e sua viagem

Há algum tempo, um jovem viajante resolveu partir rumo ao mundo, em busca de eleger a melhor cidade para se viver. Decidiu desconsiderar sua cidade-natal, já que ali tinha laços afetivos que deixariam todas as outras cidades em desvantagem inicial. Tomou seu barco, içou as velas e seguiu com o vento, sem mapa nem bússola. Partiu neutro de opiniões.

Viajar sem rota era, até então, novidade entre os marinheiros. Era por em risco sua vida, diante da imensidão e solidão dos oceanos. Mas, se este viajante traçasse caminhos considerando o que já havia ouvido falar de outras cidades, por outros marujos, estaria agregado aos valores pré-estabelecidos. Nada encanta a todos – considerava. O que é bonito pra uns pode ser repulsivo ao resto.

Só a arquitetura não bastava: de nada vale a beleza de um local onde se é mal recebido. O viajante considerava esse quesito, mas não que fosse suficiente, nem fundamental.

Avistou várias cidades ao longo dos continentes. Muitas delas pareciam atraentes, mas não o faziam atracar. Talvez o clima que a pairava, o som que se emitia, o porto que não recebia, algo no seu inconsciente fazia com que ele seguisse viagem, contemplando de longe e imaginando o que as cidades poderiam oferecer.

A viagem já durava anos. O marinheiro sofria com os desgastes da solidão. A maresia lhe corroída todo seu aparato. Com muito tempo longe de casa, o viajante já não mais sabia o que era terra firme, conforto, estabilidade. Começou a pensar que não existia uma cidade ideal, e sim uma cidade acolhedora. Cansara do balanço e da procura. Passou a desistir. Quis voltar.

Um dia, exausto, navegava ao longo da costa de um continente novo. De repente, um porto. Lançou as âncoras e atracou, a título de identificação. Descer ali não significava gostar. Queria vê-la de perto, somente.

Quando pôs os pés na cidade, o marujo não acreditou no que viu: uma arquitetura fantástica, com belezas naturais, diferente de todo o resto. Encantado, o viajante foi em busca de informações que comprovassem sua impressão, e de novos encantos.

Descobriu que era uma nova cidade, mas que funcionava melhor que tantas outras localidades mais antigas. Tinha suas ruas limpas e organizadas. As pessoas sorriam e cumprimentavam-no por onde passava. A cidade era educada, bem humorada. Era pacífica, mas não quieta. Havia festas por lá, onde ele poderia contemplar a boa música e a dança (ainda que ele não soubesse dançar). Havia cultura por ali. Os habitantes lhe receberam muito bem. Eram os próprios fundadores da cidade. O viajante foi instruído como agir na cidade, para viver bem sem danificar o que já havia sido construído. Era tão feliz agora que havia em si uma vontade enorme de ajudar a cidade a crescer.

À medida que descobria a cidade, encantava-se com os detalhes. Não se perdia mais ruas adentro, mas ficava surpreso com as novidades que ela apresentava. Em pouco tempo, havia decretado: minha opinião é que esta é a melhor cidade do mundo! Quero morar aqui para sempre!

Algumas pessoas fora dali poderiam questioná-lo, com certa razão, confesso. O viajante não havia atracado em nenhuma outra cidade. Não havia conhecido os hábitos, costumes, história e tantas outras atrações. Não havia parâmetros. A verdade é que, para o marinheiro, não se tratava de uma comparação. Valia só o sentimento de certeza, de estar onde queria estar.

Não consigo pensar numa metáfora melhor para o amor como esta a qual acabo de escrever.

Um comentário:

  1. nao sei como vc consegue escrever coisas tao bonitas.. toda vez que leio esse texto eu choro. é a metafora mais fiel a realidade que eu conheco! te amo muito!

    ResponderExcluir