sexta-feira, 21 de maio de 2010

A bailarina

Eu me lembro de quando eu acordava com o excesso de silêncio, e meus olhos quase que cerrados viam-te flutuar e girar despida em nosso quarto, dobrando os lençóis e amontoado as poucas roupas que tínhamos. E, enquanto eu desviava dos raios do sol que atalhavam pelas frestas da nossa cortina, você me alegrava atraindo-os para sua pele, como se a ti pertencestes (e que lhe caíam muito bem), e a luz do mundo inteira brincava sobre seu corpo liso que, com aquele sorriso que eu já conhecia, me dava bom dia e me enchia de alegria.

Enquanto meu mau humor e minhas alergias me pregavam na cama, você vinha e enchia minha boca amarga com suaves beijos que, tenho pra mim, alcançavam minha alma e me sopravam alguma alegria. Eu me levantava e já havia um café forte na cozinha. Você me esperava pra tomarmos juntos, e sempre dizia que sem mim era como se o café não tivesse açúcar. Eu não agüentava e sorria, quase que em desespero. Já você ia servindo o seu otimismo sobre a mesa, querendo me dar motivos pra continuar qualquer coisa que eu havia começado. Sinceramente, eu nem me lembro mais o que era.

Eu sabia que você era fiel ao nosso trato, ainda que só na matéria, e fazia de tudo pra esconder a insatisfação de ter me escolhido como refúgio do seu amor. Eu lembro que você colocava aquele vestido fino, amarelinho, riscado de branco, e dizia que o adorava porque enganava o calor do nosso verão, e ia trabalhar toda leve. Mas antes você prometia que me traria o mundo mais tarde se assim eu prometesse ser feliz, e eu dizia que já era, que tinha você, que deixasse de besteiras e andasse logo antes que perdesse o horário. E logo eu ia apressado para meu emprego, de azul quase cinza, em tom apático e frio, tão sem graça quanto o tempo em que você estava longe.

Eu havia prometido que seria feliz se você fosse sempre como era quando namorávamos, mas havia esquecido que ainda havia minha auto-satisfação a jurar. Eu não me suportava mais nem um minuto, e todos os seus sorrisos, todos os seus beijos, os sussurros, todas as provocações com seus olhares em locais que não podíamos, suas tentativas de me manter acordado diante de tudo aquilo, tudo me consumia e eu ia me digerindo, extinguindo sorriso a sorriso, até sobrar apenas os teus. Eu era dependente dos teus sorrisos, sem eles eu não teria mais nenhum. Eu era o peso da caixinha de música, rouca, semi-tonada, inerte, enquanto você, bailarina, flutuava e girava, despida de qualquer tristeza aparente. Eu precisava de mais corda, e você já merecia os palcos e holofotes do mundo o qual roubava toda a cena.

4 comentários:

  1. Uau!

    Quem dera eu acordasse um dia e, simplesmente, escrevesse algo parecido.

    Completamente lindo, sem mais.

    ResponderExcluir
  2. Disse que era suspeita pra dizer se gostei ou não. Eu sempre gosto, você sempre se expressa da melhor maneira possível e eu sempre fico tocada com as suas palavras! Dá pra dividir o dom? Adoraria saber escrever assim...

    ResponderExcluir
  3. LINDO tchuuuuuuuuuuris! :D

    ResponderExcluir
  4. Pra que ser poeta se eu já tenho um? TCHUCO! ta de parabéns mesmo! You've got a gift from heaven, go on, make it happen!

    que clichê Ana Elisa ;x
    mas deixo a originalidade toda pra vc baby :*
    (L)ove you

    ResponderExcluir